quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Fim da invasão americana no Iraque. Começo dos problemas no Afeganistão.

Após 7 anos, o Governo Obama anunciou que irá iniciar a retirada de suas tropas do Iraque.

Os EUA demoraram todo esse tempo e gastaram vultosas quantias para concluir o que todos já sabiam:

O Iraque não possui armas de destruição em massa e também não representa "perigo à segurança americana". Esse é o discurso oficial que justificava a intervenção.
Extra oficialmente (acredito eu), os EUA perceberam que o Iraque é financeiramente inviável e o petróleo que ali existe ficou caro demais para compensar o esforço de guerra empreendido.

Ou ainda: "Melhor do que está não dá pra ficar. Let's leave." Mas isso é um pensamento meu.

No fim das contas, não sei se é possível chamar o que está acontecendo no Iraque de "retirada de tropas".
Os EUA vão diminuir o contingente de soldados de 80 mil para 50 mil nos próximos meses -o que, convenhamos, não é uma redução tão substancial assim-.
Esses 50 mil remanecentes ficarão mais 4 anos na "Terra de Saddam" para - supostamente - treinar e aparelhar as tropas do governo local.

É possível que a população local nem sinta que houve real redução nas tropas americanas em seu país, haja vista que os "Marines" poderão ser substituídos por firmas privadas como a "BlackWater".
Essa "empresa de seguraça" (leia-se exército mercenário) contrata ex-combatentes do próprio Exército americano para compor suas forças de batalha.
Em resumo, troca-se o nome e a "pessoa jurídica", mas pouco muda na prática.

Supondo que o reservista que serviu no Iraque decida que não irá se juntar à "iniciativa privada" ele poderá voltar para casa? Irá rever sua família?

Não, é bem capaz que não.
Há grandes chances de ser enviado para outro front não muito longe dali: o Afeganistão.

A terra da Al Quaeda e das carverna de Osama fazem com que, na comparação, o Iraque pareça um parque de diversões.

O Afeganistão é uma "ficção geopolítica".
Foi um Estado criado, no século XIX, para "separar" as conquistas do "Império Russo"(ao norte) das conquistas do "Império Britânico" (ao Sul) no Oriente Médio e na Ásia Central.
Históricamente, todos os países que tentaram dominar o "Pais" sofreram derrotas humilhantes para a população local.
Os conquistadores constumam dominar as regiões de planície, onde fica a capital do país, Cabul, mas não conseguem dominar a região montanhosa no sudeste - boa parte da fronteira com o Paquistão -.

Aconteceu com os britânicos no século XIX, com os russos na década de 80 do século XX (o Vietnã soviético") e ocorre agora com os EUA, na "Guerra Contra o Terror" que já dura 9 anos.

Não se deve perder de vista que quando Obama disse que sairia do Iraque é natural que se pense que os gastos militares americanos seriam reduzidos - afinal, é uma guerra a menos para se bancar - mas, ao contrário, as despesas militares irão subir por conta da guerra afegã.

Você, que já chegou até aqui em sua leitura, deve estar se perguntando por que tanto interesse no Afeganistão?

A libertação do oprimido povo afegão?

Não!

Matar Bin Laden e acabar com a Al Quaeda?

Talvez, mas essa busca, por si só, não justifica os bilhões de dólares que já foram gastos e os que ainda serão.

Acertou quem disse petróleo, ou melhor, gás natural.

A região do Mar Cáspio é rica nesse tipo de hidrocarboneto e há poucas opções para o escoamento desse "commoditie" tão valioso.
A maioria das rotas de gasodutos está sob controle geopolítico da Rússia ou da China, o que não interessa aos EUA que quer sua própria via de escoamento pelo Afeganistão e pelo Paquistão (até o mar das Arábias).

Para conseguir acessar gás "caspiano" a pacificação do Afeganistão é imprescindível, situação que parece cada vez mais ilusória e dispendiosa aos EUA.

(ver mapa)


Os EUA estão subindo o tom contra o Irã, que pode a segunda opção de rota desse gasoduto.

Seria quase impossível, nesse momento, que os EUA abrissem uma terceira frente de batalha no Oriente Médio, mas, reduzindo suas operações no Iraque é mais fácil pensar em uma operação no Irã.

O empecilho à ação americana na "Pérsia" é o programa nuclear de Mahmoud Ahmadinejad o qual os EUA estão loucos para impedir que seja finalizado.

Analistas experientes que escrevem para a revistas como a "Foreign Affairs" afirmam que o esforço empreendido para acessar o gás natural do Mar Cáspio não compensa a perda de vidas de seus combatentes, da pressão da opinião pública norte-americana e das tensões locais.
Ademais, os EUA já chegaram à cifra de quase US$ 1 bilhão por dia investidos em sua "Maquinas de Guerra" mundo afora. O que é muito até mesmo para um país próspero como os EUA.

Os EUA agiriam com mais inteligência se decidissem abandonar definitivamente suas pretensões imperialistas no Oriente Médio, (mal) disfarçadas de "Guerra ao Terror", e procurassem outras regiões do globo para suprir suas necessidades energéticas.
Preferencialmente, pelas vias "normais" de negociação e comércio e não pela invasão e ocupação militar.

Entretanto, nem sempre o que poderia ser é o que realmente é.

Que afundem no "Pântano Afegão" então.

Afinal, não serão os primeiros a fazê-lo.


(imagens da WEB)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Varsóvia -1939 = Gaza-2010.

É impressionante como o Mundo dá voltas.

Em 1939, a Polônia é invadida pela Alemanha Nazista que cerca, segrega e mata um número altíssimo de judeus, apenas por serem judeus.

Hoje, 70 anos depois, os judeus fazem o mesmo com os palestinos da Faixa de Gaza.

Ok! A disputa no Oriente Próximo é antiga, para ser mais exato, é uma disputa bíblica.

Há muito tempo se discute quem deveria proteger (ou possuir) a região da Palestina.

A região em questão já passou pela dominação de vários povos..... Em tempos recentes saiu da mão do Império Turco-Otomano, foi para a França e depois à Inglaterra (ao final da Primeira Guerra Mundial).

Durante a Segunda Guerra, e após seu final, houve grande migração de judeus de toda a Europa em direção à "Terra Santa".

A Inglaterra, como gestora oficial da região, não aprovava a migração, todavia, não conseguia contê-la.
Como era um momento em que a Inglaterra estava se "desfazendo" de suas colônias pouco fez para impedir a invasão dos judeus à Palestina.

Os ingleses preferiram propor a divisão da região entre árabes e judeus e a ONU como gestora desse processo.

A Capital, Jerusalém, seria compartilhada pelos dois povos, visto que ambos a consideram como "solo sagrado".

Tudo isso ocorreu entre 1945 e 1949.

De lá para cá, o que estava dividido meio a meio foi conquistado, na forma de duas guerras pelos judeus (a "Dos Seis Dias" e do "Yomkipur") que, além de aumentarem suas possessões sobre o espaço físico da região, também passaram a controlar as fronteiras de ambos os "Estados".

Hoje, os israelenses constroem muros para oficializar a demarcação de uma área que foi ilegalmente INVADIDA.
Transformam a vida dos árabes-palestinos que vivem ali em um verdadeiro martírio. Todos não-israelenses e não-judeus são, a priori, terroristas.

Os abusos das autoridades judaicas são frequentes, o preconceito, constante.

O desrespeito às leis internacionais também é.
Quem tenta ajudar os "sobreviventes" de gaza é taxado como conspirador e terrorista co-partícipe (quem sabe, até mesmo, membro da Al-Qaida).

Isso ocorreu esta semana com a brasileira-americana Iara Lee, que poderia ser uma das nove pessoas mortas durante a interceptação violenta de seu navio por forças israelenses, e que teve de assinar uma declaração confessando o "ato de terrorismo" (de levar remédios e comida para os habitantes de Gaza) para poder deixar a prisão de Israel e ser deportada aos EUA.

É vergonhoso que um povo que foi vítima de opressão por tanto tempo - e saiba o que é ser DESTERRADO - não veja problemas em infligir o mesmo sofrimento a co-irmãos tão pouco tempo depois do Holocausto.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por que os EUA não ratificam o acordo nuclear com o Irã ?

A complexidade das Relações Internacionais é, ao mesmo tempo o que me fascina e o que me intriga.

Há um século atrás, o mais comum era que a diplomacia fosse gerida de gabinetes fechados e fosse pautada por acordos secretos.
Desde o final da Primeira Guerra, ficou instutuído que a diplomacia fosse aberta.

Os tratados entre países só seriam aceitos pela comunidade internacional se fossem publicados na "Sociedade das Nações" (antecessora da ONU).

De fato, isso é o que vem sendo feito desde então.

Desta forma, a comunidade internacional ganhou em transparência.

Entretanto, o que ainda não mudou nos últimos 300 anos são os processos de negociação de acordos, esses sim continuam sendo secretos (e dificilmente deixarão de ser).

Ocorre que quando esses processos são revelados mostram como o mundo das RI´s pode não fazer sentido (aparentemente).

O Brasil e a Turquia vinham conduzindo o processo de pacificação da "crise nuclear" iraniana.
Os principais atores da ONU, descrentes de um acordo, jácomeçam a pensar em sanções ao país persa. Passaram essa responsabilidade para nós como uma última cartada (mas já desacreditando que pudéssemos dar uma solução final a este problema).

E não é que, contrariando todas as previsões, chegou-se a um acordo, e com bases muito favoráveis á pacificação iraniana.

Vitória dos emergente, vitória da "nova diplomacia mundial" (aquela que democratiza os meios de negociação e os países envolvidos).

Os EUA foram os primeiros a desconsiderar o acordo feito, desmereceram o esforço feito pelos "terceiro mundistas".
Deixaram a impressão de que só porque somos da periferia seriamos incapazes de dar respaldo real a um acordo com essa importância. Algo como:

"O Acordo só vale se for feito por alguém do G-7 ou do Conselho de Segurança."

Eis que agora a "Folha de SP" divulga a troca de mensagens entre Barack Obama e Lula sobre esse assunto e mostram que o acordo conseguido com o Irã segue exatamente o os pontos discutidos entre EUA e Brasil.

Ou seja, assumimos o posto de negociadores; fazemos a ponte entre as extremidades do problema; conseguimos um acordo que segue à risca o que foi pedido pelas Potências Ocidentais e, mesmo assim, ao invés de sermos celebrados como "peace makers", somos sumariamente ignorados por aqueles que nos pediram ajuda no início.

Até o surgimento dessa troca telegramas entre Brasil e EUA até havia espaço para rumores e reclamações das potências mundiais, agora, qualquer reclamação perdeu o sentido.

Só me pergunto:

O que motiva a insistência em punir o Irã?

Qual a justificativa que os EUA darão para continuar pedindo sanções econômicas ao Irã agora?

É, pelo jeito a diplomacia secreta ainda existe.....

Leia a correspondência entre Obama e Lula traduzida e na íntegra.


(foto da WEB)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Rússia e o Aquecimento Global: vantagens e desvantagens

O aquecimento global mudará o Polo Norte para sempre, e não estou falando apenas do aspecto ecológico da região, a geopolítica também vai esquentar.....

A Rússia sempre quis uma saída de mar "quente" para agilizar suas transações comerciais, o Mar do Norte fica congelado por volta de oito meses do ano, um grande complicador para a economia moscovita.

No século XIX (1854), a Rússia empreendeu contra a Turquia a "Guerra da Criméia" em busca dessa rota comercial permanente.
Uma coalizão de Inglaterra, França e Turquia impediu que os russos dominassem os desejados estreitos de Bósforos e Dardanelos, frustrando os sonhos de liberdade marítima do Czar.

Com o iminente derretimento do Polo Norte, sem esforço, a Rússia está conseguindo a sua tão sonhada saída comercial permanente.

Mas não é apenas uma nova rota que a Rússia deseja nessa atual fase do planeta.

O Polo Norte é uma área riquíssima em petróleo e gás natural - principalmente gás.

Supõe-se que 30% das reservas não exploradas de gás do Mundo estejam nessa região.

Todo esse pacote de combustível fóssil está sob de alguns metros gelo - que já começou a derreter.
Ao contrário do Polo Sul (que foi declarado "bem indivisível da Humanidade"), o Polo Norte é cobiçado por muitos países daquela região, agora será mais ainda.

A Noruega é o grande obstáculo dos russos nesse momento, pela proximidade geográfica, os "vikings" também desejam estabelecer controle dessa região.

Forma-se uma equação instável e altamente complexa. O desejo de combustíveis fósseis, de rotas comerciais somados a rivalidades históricas.

A Noruega foi palco de disputas entre nazistas e russos durante a Segunda Guerra, devastando o país e deixando grande ressentimento na população local.

Já é possível ter uma ideia do tipo de rivalidade que existe naquela região.

Um conflito por recursos naturais ou mesmo vias de acesso marítimo podem trazer grande intranquilidade ao Mar do Norte.

É o aquecimento global trazendo novos-velhos conflitos à tona.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A polêmica da limitação das armas. - Parte 2


(...continuando)

A invasão a uma colônia poderia resultar em uma resposta (auto-defensiva) de seu colonizador?

E uma guerra-civil na colônia?

Qual seria a definição de uma "guerra justa" ?

O que ocorreu na década de 20 foi um grande desacordo entre as potências, cada uma delas possuindo sua própria definição do que seriam os "armamentos justos" e do que seriam "guerras justas".

Com isso, a Alemanha armou-se - secretamente - durante 15 anos, e no momento oportuno deixou o pacto e iniciou as invasões que dariam início à Segunda Guerra.

O Japão invadiu a Manchúria (hoje parte da China e da Rússia), em 1931, alegando a defesa de suas colônias.
Assim como a Itália invadiu a Absínia (Etiópia), em 1935, usando os mesmos argumentos.

Como é sabido, esses 3 países foram responsáveis pela formação do "EIXO", liderado por Hitler, anos depois.

Agora a polêmica volta com nova roupagem.

Desde já, adianto que não acredito em uma "Terceira Guerra Mundial", entretanto o que causa certo temor são as tentativas de regulação de armamentos, afinal, já falharam no passado e nada indica que funcionarão agora.

Essa postagem é motivada pelo novo Tratado de Não-Proliferação (Atômica), proposto pelos EUA para ajudar a regulação do poder nuclear no mundo.

Assim como ocorrido em 1928, o resultado do novo TNP é mais tensão e aumento de arsenal.

Os EUA não conseguirão controlar a produção bélica ou atômica de quem quer que seja, pois isso é um atributo de soberania nacional (se quiserem mesmo se armar, os Estados irão se armar e ponto).
Não se pode impedir os países de fabricar armas, às vezes, nem mesmo se pode impedí-los de usá-las.

O que pode ser feito é puní-los em caso de ataque injustificado a outras nações.

O Irã já possui um projeto atômico em desenvolvimento e é impossível pará-lo.

O que deve ser feito é garantir que esse projeto não resulte, no longo prazo, em ataque nuclear.

Em um caso como esse, acredito ser muito mais efetivo negociar soluções pacíficas (como têm feito o Brasil e a Turquia) do que ameaçar uma retaliação nuclear "preventiva" (como querem os EUA).

Queremos mesmo repetir os erros do passado?

É sempre bom lembrar que o país que surge como "paladino da justiça e da moral " foi o único a usar armas atômicas contra populações civis.

O interesse em fiscalizar a disseminação dessa tecnologia não se dá pela busca da "paz mundial ", mas sim, porque os EUA não desejam que mais países obtenham o controle do "ciclo atômico".


terça-feira, 4 de maio de 2010

A polêmica da limitação das armas. - Parte 1

É engraçado como, de tempos em tempos, algumas polêmicas do passado voltam à pauta com nova roupagem.

Deve ter isso que Nietzsche quis dizer com o "eterno retorno".

Agora os EUA se esforçam para emplacar uma nova política de limitação atômica. Criam-se novas regras e um belo discurso de "busca da paz" para justificar o controle da tecnologia atômica.

Os EUA até tentam dar o exemplo, afirmam que eles próprios estão reduzindo seu arsenal em 40%. Em breve serão "apenas" três mil ogivas atômicas.

Afirmam que só deixarão de ser uma nação nuclear quando todos os outros países do mundo assim o fizerem (e, convenhamos, isso nunca acontecerá).

Para mim, essa postura lembra muito a discussão ocorrida no final da década de 20, e que originou o "Pacto de Briand-Kellog".

A marca principal desse acordo era o de proibir a guerra como instrumento de política internacional (exceto em caso de auto-defesa).

O pacto surgiu como resultado das atrocidades ocorridas durante a Primeira Guerra.
O trauma vivido pelas nações foi tão grande que os países acharam que um documento assinado por (quase todos) as nações poderia impedir que o acontecimentos como a Grande Guerra de 1914 se repetisse.
Hitler, anos mais tarde, provou que esse tipo de tratado possui pouco ou nenhum efeito prático.

O primeiro passo seria definir o que era armamento de "defesa" e armamento de "ataque", para que depois fosse eliminado tudo o que fosse de "ataque".
Criou-se uma comissão na "Sociedade das Nações" (a antecessora da ONU) para efetuar a fiscalização de armas e exércitos.

Essa definição de "armas de ataque" ou de "defesa" era extremamente subjetiva.
Para a França - que sempre temeu a Alemanha - qualquer carro-de-combate alemão era arma ofensiva.
Já para a Alemanha, um Exército de cem mil homens era pouco para defender suas fronteiras do imperialismo francês ou do soviético.

O segundo passo foi definir o que seriam as guerras de auto-defesa.

O mesmo problema existente na questão dos armamentos repetiu-se na definição da "guerras defensivas".

(continua...)

sábado, 17 de abril de 2010

O Brasil e a Questão Nuclear.

Semana cheia para as Relações Internacionais. Na "Conferência sobre Segurança Nuclear" os países discutiram o futuro da tecnologia atômica e o direito dos países do mundo em desenvolvê -la e usá-la.

A energia nuclear tem um caráter único:

É, ao mesmo tempo, uma fonte energética e uma poderosa arma militar.

Se usada da maneira correta é uma ótima alternativa em um mundo carente de fontes -relativamente- limpas.

Se usada de maneira descontrolada é uma arma capaz de causar danos extensos em curto período de tempo.

Os tratados acerca da força atômica se esforçam para garantir que os países que detêm essa tecnologia usem-na como matriz energética e não como arma.

O "Tratado de Não-Proliferação de Armas Atômicas" (TNP) tem como objetivo principal garantir o uso pacífico dessa tecnologia.

A tarefa de garantir o uso pacífico dessa tecnologia é inglória, pois é muito difícil prever, de saída, as motivações que políticos e cientistas possuem ao desenvolverem seus programas atômicos.

Os maiores detentores da tecnologia nuclear se esforçam em qualificar quem é "bonzinho" e quem é "mau", classificação um tanto subjetiva no mundo turbulento das Relações Internacionais.

Ser classificado como "mau" pode significar uma série de sanções dos outros países e/ou ser isolado da comunidade internacional.

Sanções que acabam mesmo prejudicando o "todo" e têm poucos fins práticos para refrear o ímpeto das elites políticas dessas nações (vide Cuba, Coréia do Norte, Iraque.....)

Mas a quem interessa a classificação dos Estados e de seus programas nucleares?

Interessam aos EUA e aos países da Europa, que por meio da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) fiscalizam a produção e segurança dos programas nucleares mundo afora.

Os técnicos da AIEA fazem vistorias em usinas e laboratórios para garantir que o país vistoriado esteja respeitando as regras internacionais sobre o assunto.

Durante a Conferência da semana passada, os EUA - um dos maiores detentores de arsenal nuclear e único a já ter usado esse arsenal em guerra - fizeram enorme esforço para que os países do mundo assinassem um adendo do TNP que aumentaria o poder "de polícia" da AIEA.

Esse adendo daria liberdade para que os referidos técnicos pudessem vistoriar qualquer localidade de um país "a qualquer tempo". Ou seja, teriam autorização para fazer ,até mesmo, "vistorias surpresas".

Alegam que essa seria a melhor forma desbaratar programas e instalações secretas nos países visitados.

Entretanto, alegação de que os países não deveriam possuir programas secretos de desenvolvimento nuclear não se sustenta.
Israel possui um programa nuclear do qual pouco se sabe e, mesmo assim, as nações líderes do Conselho de Segurança da ONU nada falam sobre o risco de ogivas nucleares voarem sobre a Palestina.

(Talvez porque Israel seja tratado como sendo parte dos "bonzinhos" já que são políticamente muito próximos aos EUA).

O mundo "subdesenvolvido" é o grande alvo do "novo TNP".
Os países desenvolvidos relutam em aceitar que o "Clube Atômico" - antes restrito aos grandes países europeus , a China e aos EUA - vem sendo ampliado.
Paquistão, Índia e Coreia do Norte já possuem suas próprias armas, o que assusta os países de Primeiro Mundo.

O Irã, ao que tudo indica, está próximo de possuir seu próprio arsenal.

Alias, faço a pergunta:

Por que o Brasil insiste em negociar saídas pacíficas para o impasse atômico iraniano?
Em primeiro lugar, porque o Brasil é um país históricamente pacífico, preceito que aqui está presente na Constituição Federal.

Segundo, porque os dirigentes brasileiros perceberam que os mesmos países que hoje criticam o programa iraniano podem, no futuro, se voltar contra o Brasil.

O Brasil é detentor de enormes jazidas de mineral atômico. A jazida de Urânio é das maiores (senão "a" maior) do mundo.
O que claramente aumenta a cobiça internacional sobre nossa nação.

Soma-se a isso, a tecnologia nuclear do Brasil.

Para enriquecer urânio são necessárias centrífugas especiais, o Brasil desenvolveu - com tecnologia própria - as centrífugas mais eficientes do mundo (melhores até do que as americanas e russas). Logicamente, os países desenvolvidos querem ter acesso a essa tecnologia pioneira.

Para isso, criam factoides e "duvidam" que o programa nacional seja mesmo pacífico, argumento que apresentam para tentar adentrar as instalações dos laboratórios nacionais.
O Brasil, sabiamente, nega a entrada em determinadas áreas desses complexos.

Nosso país parte do principio de que tecnologia nuclear existe, que deve haver regulamentação sobre seu uso, mas nenhum país deve ser probido de desenvolvê-la.
Deve, sim, ser punido caso ameace usá-la indevidamente.

O Itamaraty e o atual governo têm como princípio o conceito de que não devemos nos submeter aos designios de nações que se colocam como "protetoras da Humanidade" quando na verdade querem preservar seus "status" de potência nuclear "congelando" o desenvolvimento tecnológico do resto do mundo.

Samuel Pinheiro Guimarães, (ex-Secretário Geral do Itamaraty) e mentor da atual política externa do Brasil, afirma que:

"As grandes Nações do mundo só respeitam os países que se dão ao respeito [e não agem de maneira subserviente para com os Estados mais poderosos]".

Sou obrigado a concordar com "Seu Samuca" e com a atual postura brasileira.

Alias, deixo uma pergunta no ar:

Existe muita regulamentação acerca do uso da energia e arsenal atômico, mas as armas convencionais são as grandes causadoras de mortes em conflitos pelo mundo.

Se o problema é o dano e o sofrimento causado pelas armas em geral, não seria adequado que se criasse maior regulamentação em relação à sua produção?
A quem interessa a ampliação contínua dos arsenais convencionais?


(foto da WEB)

domingo, 3 de janeiro de 2010

George Soros e a crise em "W".

O mega-investidor George Soros (foto) escreveu artigo reproduzido pela Folha de S. Paulo no dia 03/01/2010 dando sua posição sobre o momento atual e sua previsão para o futuro da economia mundial.

Para Soros, vivemos uma transição. O neoliberalismo, o tempo em que os Estados Nacionais deixam as finanças a cargo dos conglomerados globais, está com seus dias contados. A crise atual mostra a incapacidade das grandes empresas em manterem, o bom andamento da economia global quase sem regulamentação.

O mega-investidor afirma que este momento é mais delicado do que o vivido em 1929, visto que hoje as economias dos países estão efetivamente mais integradas, portanto, muito mais interdependentes e frágeis.

Soros acredita que a melhor maneira para solucionar a crise global que vivenciamos é uma maior interação entre todos os Estados Nacionais.

Admite que ações neste sentido já estão sendo tomadas mas critica a maneira"tradicional" como estas intervenções têm sido conduzidas.
Afirma que as injeções de capital feitas pelos Estados nos mercados são uma maneira "artificial" de garantir o sistema funcionando. Dá a entender que as soluções são velhas, entretanto a maneira como esta crise se apresenta é nova, desta forma crê que o problema foi adiado, mas não resolvido.

George prevê que poderá haver uma nova depressão dos mercados nos próximos 18 meses.
É o que alguns economista vêm chamando de "Crise em W" (devido ao formato do gráfico de crescimento econômico). Ao que parece, em 2010, estariamos chegando ao fim do "primeiro V".

Para evitarmos o "segundo V", Soros sugere que deve haver uma mudança de atitude dos governos e dos operadores do sistema econômico mundial, pois a ilusão do fim da crise está reavivando os vícios que a originaram.

Soros advoga que situações inéditas exigem soluções inéditas.
Propõe uma organização de caráter multinacional como a OMC ou o FMI, mas mais poderosa do que esses, com liberdade para orquestrar uma regulação mais "firme" dos processos financeiros e que impeça ações protecionistas dos países.

O aporte de dinheiro fornecido pelos Estados foi importante nesta fase atual da economia global, entretanto, é um artifício que não poderá ser repetido com tanta frequência. Os Estados nacionais têm seus próprios gastos para administrar e a população não aceitará que o dinheiro de seus impostos seja revertido para resgatar empresas que "dão passos maiores do que as pernas" ou que premiam executivos como Bernard Madoff (que foi preso por fraude financeira).

Outros como ele ainda estão soltos e podem causar danos de proporções tão grandes ou maiores do que os que já ocorreram.

Mudanças como as que apregoadas por Soros sempre são válidas.

Que venha o novo!

sábado, 19 de dezembro de 2009

"Caso Sean Goldman" complica relações Brasil-EUA.

Começou como um caso qualquer.

Uma união entre um americano e uma brasileira que chega ao fim. Do casamento resulta um filho, que por nascer nos EUA, possui dupla nacionalidade.

A mãe volta ao Brasil com o garoto Sean. Casa-se novamente e engravida. No parto morrem a mãe e o bebê.

Os avós brasileiros de Sean e o padrasto do menino entram com o pedido de guarda na justiça brasileira. O pai biológico, David Goldman (foto), faz o mesmo na justiça norte-americana e pede o repatriamento do menor.

A briga ganhou destaque na justiça brasileira e foi parar no STF. Tão grande foi o alarde criado que virou pauta de discussão entre e Brasil e EUA. Houve pedido direto de Obama a Lula para que o menino fosse enviado ao seu pai americano.

A Constituição Brasileira diz que: Art. 5
LI- nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei;

Sean é considerado brasileiro pelo jus sanguini (direito sanguíneo) o que permite enquadrá-lo na categoria jurídica de Brasileiro Nato. Desta forma não seria possível acolher a demanda da Corte Americana e do pai.

Visto por esse ângulo, o direito interno garantiria a permanência do garoto no Brasil.

Há outras variáveis que se sobrepõem a este artigo:

1. Na falta da mãe, o pai biológico é o tutor legal da criança. Esse direito só poderia ser desconsiderado caso o ele (o pai) não manifestasse interesse na guarda do menor .

Com isso o padrasto ou a avó conseguiriam a adoção.

Não é esse o caso, o pai biológico quer o filho.

2. O garoto não é apenas brasileiro, é americano também, tanto por jus sanguini quanto por jus soli (direito por território), já que nasceu em território norte-americano.

A alegação da família brasileira de Sean é a de que o padrasto estaria cumprindo a função legal (e emocional) de pai do menino. Ao que parece, refere-se ao marido da mãe com a alcunha "pai".
As entrevistas feitas pelo Conselho Tutelar do Brasil apontam que, quando questionado sobre o assunto, Sean deseja permanecer no Brasil com a família da mãe e o padrasto.
Esse argumento foi acolhido pelo Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, que mantém o menor no país por meio de liminar.

O Direito Internacional e os tratados de cooperação que existem entre Brasil e EUA apontam para a devolução do menino ao seu pai biológico.

Uma análise fria dos fatos me faz concordar com esse procedimento.

Deu na Folha de S. Paulo de hoje que esta disputa familiar já causa estragos às relações bilaterias dos países.
O Brasil perdeu uma série de isenções tarifárias no comercio com os "ianques", por conta de nossa não observância às regras do DI.

O Brasil tenta reverter esta retaliação pela via judicial e diplomática nos EUA.

Acredito ser mais coerente devolver o menor ao seu pai. Seria mais fácil, mais rápido e menos custoso (tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista de relações inter-estatais).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Burn, baby, burn!!! O descaso que poderá virar desastre em Copenhague

Quinze dias de discussão e nenhuma solução concreta à vista. Esse é o atual quadro da Conferência do Clima de Copenhague (COP-15).
Tudo estava arrumado para que os líderes mundiais chegassem ao evento e acertassem, apenas, os detalhes finais de um amplo acordo de controle climático.

Ledo engano. As diversas visões e o desigual peso diplomático dos países paralisou o processo decisório. Interesses econômicos e, fundamentalmente, políticos complicaram muito as negociações no evento.

Divergências são normais em qualquer âmbito social, na diplomacia então, nem se fala.
Essa é uma esfera política em que as minúcias são valiosas, os detalhes fazem a diferença, é tudo demorado, deve-se acomodar todos os interesses em um mesmo documento.

Por ser um estudioso de questão ambiental estranhava a demora nesses processos, hoje, mais familiarizado com as nuances do mundo diplomático, entendo e -quase- aceito a demora.

Também pudera, até mesmo na delegação brasileira há divergências quanto à posição que devemos envergar. Imagino o que se passa nas outras delegações. Como será na China, ou no EUA ?

Fato é que até o momento não há documento oficial. O evento acaba amanhã e, nem mesmo a presença de líderes badalados como Barack Obama, Lula e Gordon Brown são capazes de desatar este verdadeiro "nó" diplomático.
Rezo por um milagre.

Já se aventa a possibilidade de a conferência terminar sem um documento oficial, e que algo mais palpável só viria daqui a 2 anos, na Conferência do México.

Essa hipótese é um atestado de fracasso do evento dinamarquês, ficariamos ,assim,"descobertos" até a rodada azteca. Pode ser tarde demais.

O Clima não espera.

"A batata está assando".