quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por que os EUA não ratificam o acordo nuclear com o Irã ?

A complexidade das Relações Internacionais é, ao mesmo tempo o que me fascina e o que me intriga.

Há um século atrás, o mais comum era que a diplomacia fosse gerida de gabinetes fechados e fosse pautada por acordos secretos.
Desde o final da Primeira Guerra, ficou instutuído que a diplomacia fosse aberta.

Os tratados entre países só seriam aceitos pela comunidade internacional se fossem publicados na "Sociedade das Nações" (antecessora da ONU).

De fato, isso é o que vem sendo feito desde então.

Desta forma, a comunidade internacional ganhou em transparência.

Entretanto, o que ainda não mudou nos últimos 300 anos são os processos de negociação de acordos, esses sim continuam sendo secretos (e dificilmente deixarão de ser).

Ocorre que quando esses processos são revelados mostram como o mundo das RI´s pode não fazer sentido (aparentemente).

O Brasil e a Turquia vinham conduzindo o processo de pacificação da "crise nuclear" iraniana.
Os principais atores da ONU, descrentes de um acordo, jácomeçam a pensar em sanções ao país persa. Passaram essa responsabilidade para nós como uma última cartada (mas já desacreditando que pudéssemos dar uma solução final a este problema).

E não é que, contrariando todas as previsões, chegou-se a um acordo, e com bases muito favoráveis á pacificação iraniana.

Vitória dos emergente, vitória da "nova diplomacia mundial" (aquela que democratiza os meios de negociação e os países envolvidos).

Os EUA foram os primeiros a desconsiderar o acordo feito, desmereceram o esforço feito pelos "terceiro mundistas".
Deixaram a impressão de que só porque somos da periferia seriamos incapazes de dar respaldo real a um acordo com essa importância. Algo como:

"O Acordo só vale se for feito por alguém do G-7 ou do Conselho de Segurança."

Eis que agora a "Folha de SP" divulga a troca de mensagens entre Barack Obama e Lula sobre esse assunto e mostram que o acordo conseguido com o Irã segue exatamente o os pontos discutidos entre EUA e Brasil.

Ou seja, assumimos o posto de negociadores; fazemos a ponte entre as extremidades do problema; conseguimos um acordo que segue à risca o que foi pedido pelas Potências Ocidentais e, mesmo assim, ao invés de sermos celebrados como "peace makers", somos sumariamente ignorados por aqueles que nos pediram ajuda no início.

Até o surgimento dessa troca telegramas entre Brasil e EUA até havia espaço para rumores e reclamações das potências mundiais, agora, qualquer reclamação perdeu o sentido.

Só me pergunto:

O que motiva a insistência em punir o Irã?

Qual a justificativa que os EUA darão para continuar pedindo sanções econômicas ao Irã agora?

É, pelo jeito a diplomacia secreta ainda existe.....

Leia a correspondência entre Obama e Lula traduzida e na íntegra.


(foto da WEB)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Rússia e o Aquecimento Global: vantagens e desvantagens

O aquecimento global mudará o Polo Norte para sempre, e não estou falando apenas do aspecto ecológico da região, a geopolítica também vai esquentar.....

A Rússia sempre quis uma saída de mar "quente" para agilizar suas transações comerciais, o Mar do Norte fica congelado por volta de oito meses do ano, um grande complicador para a economia moscovita.

No século XIX (1854), a Rússia empreendeu contra a Turquia a "Guerra da Criméia" em busca dessa rota comercial permanente.
Uma coalizão de Inglaterra, França e Turquia impediu que os russos dominassem os desejados estreitos de Bósforos e Dardanelos, frustrando os sonhos de liberdade marítima do Czar.

Com o iminente derretimento do Polo Norte, sem esforço, a Rússia está conseguindo a sua tão sonhada saída comercial permanente.

Mas não é apenas uma nova rota que a Rússia deseja nessa atual fase do planeta.

O Polo Norte é uma área riquíssima em petróleo e gás natural - principalmente gás.

Supõe-se que 30% das reservas não exploradas de gás do Mundo estejam nessa região.

Todo esse pacote de combustível fóssil está sob de alguns metros gelo - que já começou a derreter.
Ao contrário do Polo Sul (que foi declarado "bem indivisível da Humanidade"), o Polo Norte é cobiçado por muitos países daquela região, agora será mais ainda.

A Noruega é o grande obstáculo dos russos nesse momento, pela proximidade geográfica, os "vikings" também desejam estabelecer controle dessa região.

Forma-se uma equação instável e altamente complexa. O desejo de combustíveis fósseis, de rotas comerciais somados a rivalidades históricas.

A Noruega foi palco de disputas entre nazistas e russos durante a Segunda Guerra, devastando o país e deixando grande ressentimento na população local.

Já é possível ter uma ideia do tipo de rivalidade que existe naquela região.

Um conflito por recursos naturais ou mesmo vias de acesso marítimo podem trazer grande intranquilidade ao Mar do Norte.

É o aquecimento global trazendo novos-velhos conflitos à tona.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A polêmica da limitação das armas. - Parte 2


(...continuando)

A invasão a uma colônia poderia resultar em uma resposta (auto-defensiva) de seu colonizador?

E uma guerra-civil na colônia?

Qual seria a definição de uma "guerra justa" ?

O que ocorreu na década de 20 foi um grande desacordo entre as potências, cada uma delas possuindo sua própria definição do que seriam os "armamentos justos" e do que seriam "guerras justas".

Com isso, a Alemanha armou-se - secretamente - durante 15 anos, e no momento oportuno deixou o pacto e iniciou as invasões que dariam início à Segunda Guerra.

O Japão invadiu a Manchúria (hoje parte da China e da Rússia), em 1931, alegando a defesa de suas colônias.
Assim como a Itália invadiu a Absínia (Etiópia), em 1935, usando os mesmos argumentos.

Como é sabido, esses 3 países foram responsáveis pela formação do "EIXO", liderado por Hitler, anos depois.

Agora a polêmica volta com nova roupagem.

Desde já, adianto que não acredito em uma "Terceira Guerra Mundial", entretanto o que causa certo temor são as tentativas de regulação de armamentos, afinal, já falharam no passado e nada indica que funcionarão agora.

Essa postagem é motivada pelo novo Tratado de Não-Proliferação (Atômica), proposto pelos EUA para ajudar a regulação do poder nuclear no mundo.

Assim como ocorrido em 1928, o resultado do novo TNP é mais tensão e aumento de arsenal.

Os EUA não conseguirão controlar a produção bélica ou atômica de quem quer que seja, pois isso é um atributo de soberania nacional (se quiserem mesmo se armar, os Estados irão se armar e ponto).
Não se pode impedir os países de fabricar armas, às vezes, nem mesmo se pode impedí-los de usá-las.

O que pode ser feito é puní-los em caso de ataque injustificado a outras nações.

O Irã já possui um projeto atômico em desenvolvimento e é impossível pará-lo.

O que deve ser feito é garantir que esse projeto não resulte, no longo prazo, em ataque nuclear.

Em um caso como esse, acredito ser muito mais efetivo negociar soluções pacíficas (como têm feito o Brasil e a Turquia) do que ameaçar uma retaliação nuclear "preventiva" (como querem os EUA).

Queremos mesmo repetir os erros do passado?

É sempre bom lembrar que o país que surge como "paladino da justiça e da moral " foi o único a usar armas atômicas contra populações civis.

O interesse em fiscalizar a disseminação dessa tecnologia não se dá pela busca da "paz mundial ", mas sim, porque os EUA não desejam que mais países obtenham o controle do "ciclo atômico".


terça-feira, 4 de maio de 2010

A polêmica da limitação das armas. - Parte 1

É engraçado como, de tempos em tempos, algumas polêmicas do passado voltam à pauta com nova roupagem.

Deve ter isso que Nietzsche quis dizer com o "eterno retorno".

Agora os EUA se esforçam para emplacar uma nova política de limitação atômica. Criam-se novas regras e um belo discurso de "busca da paz" para justificar o controle da tecnologia atômica.

Os EUA até tentam dar o exemplo, afirmam que eles próprios estão reduzindo seu arsenal em 40%. Em breve serão "apenas" três mil ogivas atômicas.

Afirmam que só deixarão de ser uma nação nuclear quando todos os outros países do mundo assim o fizerem (e, convenhamos, isso nunca acontecerá).

Para mim, essa postura lembra muito a discussão ocorrida no final da década de 20, e que originou o "Pacto de Briand-Kellog".

A marca principal desse acordo era o de proibir a guerra como instrumento de política internacional (exceto em caso de auto-defesa).

O pacto surgiu como resultado das atrocidades ocorridas durante a Primeira Guerra.
O trauma vivido pelas nações foi tão grande que os países acharam que um documento assinado por (quase todos) as nações poderia impedir que o acontecimentos como a Grande Guerra de 1914 se repetisse.
Hitler, anos mais tarde, provou que esse tipo de tratado possui pouco ou nenhum efeito prático.

O primeiro passo seria definir o que era armamento de "defesa" e armamento de "ataque", para que depois fosse eliminado tudo o que fosse de "ataque".
Criou-se uma comissão na "Sociedade das Nações" (a antecessora da ONU) para efetuar a fiscalização de armas e exércitos.

Essa definição de "armas de ataque" ou de "defesa" era extremamente subjetiva.
Para a França - que sempre temeu a Alemanha - qualquer carro-de-combate alemão era arma ofensiva.
Já para a Alemanha, um Exército de cem mil homens era pouco para defender suas fronteiras do imperialismo francês ou do soviético.

O segundo passo foi definir o que seriam as guerras de auto-defesa.

O mesmo problema existente na questão dos armamentos repetiu-se na definição da "guerras defensivas".

(continua...)

sábado, 17 de abril de 2010

O Brasil e a Questão Nuclear.

Semana cheia para as Relações Internacionais. Na "Conferência sobre Segurança Nuclear" os países discutiram o futuro da tecnologia atômica e o direito dos países do mundo em desenvolvê -la e usá-la.

A energia nuclear tem um caráter único:

É, ao mesmo tempo, uma fonte energética e uma poderosa arma militar.

Se usada da maneira correta é uma ótima alternativa em um mundo carente de fontes -relativamente- limpas.

Se usada de maneira descontrolada é uma arma capaz de causar danos extensos em curto período de tempo.

Os tratados acerca da força atômica se esforçam para garantir que os países que detêm essa tecnologia usem-na como matriz energética e não como arma.

O "Tratado de Não-Proliferação de Armas Atômicas" (TNP) tem como objetivo principal garantir o uso pacífico dessa tecnologia.

A tarefa de garantir o uso pacífico dessa tecnologia é inglória, pois é muito difícil prever, de saída, as motivações que políticos e cientistas possuem ao desenvolverem seus programas atômicos.

Os maiores detentores da tecnologia nuclear se esforçam em qualificar quem é "bonzinho" e quem é "mau", classificação um tanto subjetiva no mundo turbulento das Relações Internacionais.

Ser classificado como "mau" pode significar uma série de sanções dos outros países e/ou ser isolado da comunidade internacional.

Sanções que acabam mesmo prejudicando o "todo" e têm poucos fins práticos para refrear o ímpeto das elites políticas dessas nações (vide Cuba, Coréia do Norte, Iraque.....)

Mas a quem interessa a classificação dos Estados e de seus programas nucleares?

Interessam aos EUA e aos países da Europa, que por meio da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) fiscalizam a produção e segurança dos programas nucleares mundo afora.

Os técnicos da AIEA fazem vistorias em usinas e laboratórios para garantir que o país vistoriado esteja respeitando as regras internacionais sobre o assunto.

Durante a Conferência da semana passada, os EUA - um dos maiores detentores de arsenal nuclear e único a já ter usado esse arsenal em guerra - fizeram enorme esforço para que os países do mundo assinassem um adendo do TNP que aumentaria o poder "de polícia" da AIEA.

Esse adendo daria liberdade para que os referidos técnicos pudessem vistoriar qualquer localidade de um país "a qualquer tempo". Ou seja, teriam autorização para fazer ,até mesmo, "vistorias surpresas".

Alegam que essa seria a melhor forma desbaratar programas e instalações secretas nos países visitados.

Entretanto, alegação de que os países não deveriam possuir programas secretos de desenvolvimento nuclear não se sustenta.
Israel possui um programa nuclear do qual pouco se sabe e, mesmo assim, as nações líderes do Conselho de Segurança da ONU nada falam sobre o risco de ogivas nucleares voarem sobre a Palestina.

(Talvez porque Israel seja tratado como sendo parte dos "bonzinhos" já que são políticamente muito próximos aos EUA).

O mundo "subdesenvolvido" é o grande alvo do "novo TNP".
Os países desenvolvidos relutam em aceitar que o "Clube Atômico" - antes restrito aos grandes países europeus , a China e aos EUA - vem sendo ampliado.
Paquistão, Índia e Coreia do Norte já possuem suas próprias armas, o que assusta os países de Primeiro Mundo.

O Irã, ao que tudo indica, está próximo de possuir seu próprio arsenal.

Alias, faço a pergunta:

Por que o Brasil insiste em negociar saídas pacíficas para o impasse atômico iraniano?
Em primeiro lugar, porque o Brasil é um país históricamente pacífico, preceito que aqui está presente na Constituição Federal.

Segundo, porque os dirigentes brasileiros perceberam que os mesmos países que hoje criticam o programa iraniano podem, no futuro, se voltar contra o Brasil.

O Brasil é detentor de enormes jazidas de mineral atômico. A jazida de Urânio é das maiores (senão "a" maior) do mundo.
O que claramente aumenta a cobiça internacional sobre nossa nação.

Soma-se a isso, a tecnologia nuclear do Brasil.

Para enriquecer urânio são necessárias centrífugas especiais, o Brasil desenvolveu - com tecnologia própria - as centrífugas mais eficientes do mundo (melhores até do que as americanas e russas). Logicamente, os países desenvolvidos querem ter acesso a essa tecnologia pioneira.

Para isso, criam factoides e "duvidam" que o programa nacional seja mesmo pacífico, argumento que apresentam para tentar adentrar as instalações dos laboratórios nacionais.
O Brasil, sabiamente, nega a entrada em determinadas áreas desses complexos.

Nosso país parte do principio de que tecnologia nuclear existe, que deve haver regulamentação sobre seu uso, mas nenhum país deve ser probido de desenvolvê-la.
Deve, sim, ser punido caso ameace usá-la indevidamente.

O Itamaraty e o atual governo têm como princípio o conceito de que não devemos nos submeter aos designios de nações que se colocam como "protetoras da Humanidade" quando na verdade querem preservar seus "status" de potência nuclear "congelando" o desenvolvimento tecnológico do resto do mundo.

Samuel Pinheiro Guimarães, (ex-Secretário Geral do Itamaraty) e mentor da atual política externa do Brasil, afirma que:

"As grandes Nações do mundo só respeitam os países que se dão ao respeito [e não agem de maneira subserviente para com os Estados mais poderosos]".

Sou obrigado a concordar com "Seu Samuca" e com a atual postura brasileira.

Alias, deixo uma pergunta no ar:

Existe muita regulamentação acerca do uso da energia e arsenal atômico, mas as armas convencionais são as grandes causadoras de mortes em conflitos pelo mundo.

Se o problema é o dano e o sofrimento causado pelas armas em geral, não seria adequado que se criasse maior regulamentação em relação à sua produção?
A quem interessa a ampliação contínua dos arsenais convencionais?


(foto da WEB)

domingo, 3 de janeiro de 2010

George Soros e a crise em "W".

O mega-investidor George Soros (foto) escreveu artigo reproduzido pela Folha de S. Paulo no dia 03/01/2010 dando sua posição sobre o momento atual e sua previsão para o futuro da economia mundial.

Para Soros, vivemos uma transição. O neoliberalismo, o tempo em que os Estados Nacionais deixam as finanças a cargo dos conglomerados globais, está com seus dias contados. A crise atual mostra a incapacidade das grandes empresas em manterem, o bom andamento da economia global quase sem regulamentação.

O mega-investidor afirma que este momento é mais delicado do que o vivido em 1929, visto que hoje as economias dos países estão efetivamente mais integradas, portanto, muito mais interdependentes e frágeis.

Soros acredita que a melhor maneira para solucionar a crise global que vivenciamos é uma maior interação entre todos os Estados Nacionais.

Admite que ações neste sentido já estão sendo tomadas mas critica a maneira"tradicional" como estas intervenções têm sido conduzidas.
Afirma que as injeções de capital feitas pelos Estados nos mercados são uma maneira "artificial" de garantir o sistema funcionando. Dá a entender que as soluções são velhas, entretanto a maneira como esta crise se apresenta é nova, desta forma crê que o problema foi adiado, mas não resolvido.

George prevê que poderá haver uma nova depressão dos mercados nos próximos 18 meses.
É o que alguns economista vêm chamando de "Crise em W" (devido ao formato do gráfico de crescimento econômico). Ao que parece, em 2010, estariamos chegando ao fim do "primeiro V".

Para evitarmos o "segundo V", Soros sugere que deve haver uma mudança de atitude dos governos e dos operadores do sistema econômico mundial, pois a ilusão do fim da crise está reavivando os vícios que a originaram.

Soros advoga que situações inéditas exigem soluções inéditas.
Propõe uma organização de caráter multinacional como a OMC ou o FMI, mas mais poderosa do que esses, com liberdade para orquestrar uma regulação mais "firme" dos processos financeiros e que impeça ações protecionistas dos países.

O aporte de dinheiro fornecido pelos Estados foi importante nesta fase atual da economia global, entretanto, é um artifício que não poderá ser repetido com tanta frequência. Os Estados nacionais têm seus próprios gastos para administrar e a população não aceitará que o dinheiro de seus impostos seja revertido para resgatar empresas que "dão passos maiores do que as pernas" ou que premiam executivos como Bernard Madoff (que foi preso por fraude financeira).

Outros como ele ainda estão soltos e podem causar danos de proporções tão grandes ou maiores do que os que já ocorreram.

Mudanças como as que apregoadas por Soros sempre são válidas.

Que venha o novo!

sábado, 19 de dezembro de 2009

"Caso Sean Goldman" complica relações Brasil-EUA.

Começou como um caso qualquer.

Uma união entre um americano e uma brasileira que chega ao fim. Do casamento resulta um filho, que por nascer nos EUA, possui dupla nacionalidade.

A mãe volta ao Brasil com o garoto Sean. Casa-se novamente e engravida. No parto morrem a mãe e o bebê.

Os avós brasileiros de Sean e o padrasto do menino entram com o pedido de guarda na justiça brasileira. O pai biológico, David Goldman (foto), faz o mesmo na justiça norte-americana e pede o repatriamento do menor.

A briga ganhou destaque na justiça brasileira e foi parar no STF. Tão grande foi o alarde criado que virou pauta de discussão entre e Brasil e EUA. Houve pedido direto de Obama a Lula para que o menino fosse enviado ao seu pai americano.

A Constituição Brasileira diz que: Art. 5
LI- nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei;

Sean é considerado brasileiro pelo jus sanguini (direito sanguíneo) o que permite enquadrá-lo na categoria jurídica de Brasileiro Nato. Desta forma não seria possível acolher a demanda da Corte Americana e do pai.

Visto por esse ângulo, o direito interno garantiria a permanência do garoto no Brasil.

Há outras variáveis que se sobrepõem a este artigo:

1. Na falta da mãe, o pai biológico é o tutor legal da criança. Esse direito só poderia ser desconsiderado caso o ele (o pai) não manifestasse interesse na guarda do menor .

Com isso o padrasto ou a avó conseguiriam a adoção.

Não é esse o caso, o pai biológico quer o filho.

2. O garoto não é apenas brasileiro, é americano também, tanto por jus sanguini quanto por jus soli (direito por território), já que nasceu em território norte-americano.

A alegação da família brasileira de Sean é a de que o padrasto estaria cumprindo a função legal (e emocional) de pai do menino. Ao que parece, refere-se ao marido da mãe com a alcunha "pai".
As entrevistas feitas pelo Conselho Tutelar do Brasil apontam que, quando questionado sobre o assunto, Sean deseja permanecer no Brasil com a família da mãe e o padrasto.
Esse argumento foi acolhido pelo Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, que mantém o menor no país por meio de liminar.

O Direito Internacional e os tratados de cooperação que existem entre Brasil e EUA apontam para a devolução do menino ao seu pai biológico.

Uma análise fria dos fatos me faz concordar com esse procedimento.

Deu na Folha de S. Paulo de hoje que esta disputa familiar já causa estragos às relações bilaterias dos países.
O Brasil perdeu uma série de isenções tarifárias no comercio com os "ianques", por conta de nossa não observância às regras do DI.

O Brasil tenta reverter esta retaliação pela via judicial e diplomática nos EUA.

Acredito ser mais coerente devolver o menor ao seu pai. Seria mais fácil, mais rápido e menos custoso (tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista de relações inter-estatais).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Burn, baby, burn!!! O descaso que poderá virar desastre em Copenhague

Quinze dias de discussão e nenhuma solução concreta à vista. Esse é o atual quadro da Conferência do Clima de Copenhague (COP-15).
Tudo estava arrumado para que os líderes mundiais chegassem ao evento e acertassem, apenas, os detalhes finais de um amplo acordo de controle climático.

Ledo engano. As diversas visões e o desigual peso diplomático dos países paralisou o processo decisório. Interesses econômicos e, fundamentalmente, políticos complicaram muito as negociações no evento.

Divergências são normais em qualquer âmbito social, na diplomacia então, nem se fala.
Essa é uma esfera política em que as minúcias são valiosas, os detalhes fazem a diferença, é tudo demorado, deve-se acomodar todos os interesses em um mesmo documento.

Por ser um estudioso de questão ambiental estranhava a demora nesses processos, hoje, mais familiarizado com as nuances do mundo diplomático, entendo e -quase- aceito a demora.

Também pudera, até mesmo na delegação brasileira há divergências quanto à posição que devemos envergar. Imagino o que se passa nas outras delegações. Como será na China, ou no EUA ?

Fato é que até o momento não há documento oficial. O evento acaba amanhã e, nem mesmo a presença de líderes badalados como Barack Obama, Lula e Gordon Brown são capazes de desatar este verdadeiro "nó" diplomático.
Rezo por um milagre.

Já se aventa a possibilidade de a conferência terminar sem um documento oficial, e que algo mais palpável só viria daqui a 2 anos, na Conferência do México.

Essa hipótese é um atestado de fracasso do evento dinamarquês, ficariamos ,assim,"descobertos" até a rodada azteca. Pode ser tarde demais.

O Clima não espera.

"A batata está assando".

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Na Conferência do Clima (COP-15), concordo com a Dilma.

A "Conferência do Clima" de Copenhague (COP-15) chega a sua segunda semana.
É a partir de agora que o evento ganha em importância e dramaticidade, os chefes de Governo e de Estado e suas comitivas começam a chegar à Dinamarca.

A comitiva brasileira é uma grande prévia das eleições de 2010. Já desembarcaram no país nórdico: Dilma, Serra e Marina.
Cada um com sua visão sobre o tema, cada um querendo mostrar ao mundo sua própria plataforma eleitoral.

Não há uma proposta oficial com a qual os trabalhos da Conferência serão desenvolvidos, todavia é quase consenso que haverá um fundo de compensações para países pobres e/ou biodiversos. Especula-se que este fundo terá um montante bastante elevado de dinheiro para ajudar a pagar pela preservação. Fala-se em valores que vão de US$ 100 bi. até US$ 500 bi. , aporte que seria angariado entre os países industrializados do mundo (em processo semelhante ao que é realizado com os fundos de empréstimo do F.M.I.)

Para Marina Silva, o Brasil deveria ser um dos países contribuintes, mas com um valor baixo (US$ 1 bi, por exemplo).
A lógica da Senadora Acreana tem seu sentido:
Se o Brasil é um emergente "VIP" deve agir como tal, fazemos nossa doação -simbólica- aos "mais pobres do que nós" e constrangemos as lideranças econômicas mundiais a fazer a sua parte (muito mais vultosa, claro).

Dilma Rousseff crê que não deveriamos contribuir com o suposto fundo, apenas sermos beneficiados por ele.

Ao meu ver, a Ministra da Casa Civil está certa.

Somos o país com a biodiversidade mais rica do mundo.
Possuimos a maior floresta tropical que ainda existe. Fora isso, biomas exclusivos como o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pantanal.....Todos valiosos por seu alto número de espécies animais e vegetais e, principalmente, todos sofrendo com a degradação.

Só isso já é motivo suficiente para exigirmos auxílio financeiro, ajudar-nos nessa empreitada deveria ser interesse de todos os países, mas não é nada barato.

Sendo assim, por que não apresentar esta conta para aqueles que põe em risco esse patrimônio?

Vou junto com o pensamento de Dilma, creio que a "conta ambiental" não nos pertence e deve ser assumida pelos "grandes" do mundo.

O Brasil não deveria dar dinheiro a quem quer que seja.


Devemos sim, exigir políticas de compensação ambiental aos países industrializados e degradadores, mormente aos EUA e à China, responsáveis por mais da metade das emissões de gases-estufa.

Somos um país "em vias de desenvolvimento", um número significativo de brasileiros passa por algum tipo severo de carência (de estudo, de saneamento, de saúde, ou todas juntas).

Essas pessoas, muitas vezes, contribuem com a degradação de uma área simplesmente por não possuirem fontes de renda alternativas.
Sua miserável realidade acaba falando mais alto.
São forçadas pelas circunstâncias à cortar ávores, de maneira ilegal, para vender madeira ou matar animais -ameaçados- pois necessitam comer.

Antes de ceder dinheiro a este fundo, deveriamos minorar essas carências.

É fato que uma população socialmente inserida causa menos pressão ambiental.

Sim, há países que necessitam demais do aporte de um fundo como esse, mas não podemos nos iludir, não somos nenhum "Canadá".

Outra coisa: Devemos deixar claro aos estrangeiros que esses mecanismos de compensação também não são uma "compra à prazo da Amazônia".

Esse fundo é apenas uma forma de redistribuição de renda que servirá para a melhoria de vida populações ameaçadas pelas mudanças climáticas. Mudanças causadas, majoritariamente, pelos países do hemisfério norte do Planeta.

Ajudar os países do "terceiro mundo" de maneira consistente, no mínimo, evitará uma avalanche de "refugiados ambientais" nos países desenvolvidos nos próximos 50 anos.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Ainda Honduras...

Aos poucos, algumas "previsões" vão se confirmando, e para o bem das relações externas do Brasil.

A principal delas é gradual a aceitação da nova situação política de Honduras.

Não há comunicação oficial dessa mudança no Itamaraty. Inicialmente, Lula negou a aceitação da eleição hondurenha "peremptoriamente", dias depois, Dilma veio a público com discurso mais ameno, a cúpula brasileira mostra sinais de distensão.

Já não era sem tempo, a situação caribenha estava, mesmo, toda errada, mas caminha para solução final:

Zelaya não poderia ter dado início ao referendo que lhe concederia o direito à re-eleição.
Fê-lo porque sabia que o candidato de seu partido não ganharia as próximas eleições, mas ele sim poderia ganhar devido a sua alta popularidade.
Realizou, entretanto, uma manobra anti-constitucional, o que daria margem legal para sua deposição.

Micheletti, o Presidente da Suprema Corte Hondurenha, também errou, não poderia ter enviado o Exército à casa de Zelaya para deportá-lo do país, bastava destituí-lo da Presidência. Da forma como agiu, Micheletti passou a impressão de que poderia dar um golpe militar, acirrando os ânimos interna e externamente.

O maior temor das chancelarias de Brasil e dos EUA era o de que Micheletti tomasse gosto pelo poder e resolvesse ficar com a cadeira de Presidente por "tempo indeterminado", por bem, esse temor não se confirmou.

Em vista dessa grande desordem, a decisão mais acertada foi a de "zerar o jogo".
Assim, acelerou-se a nova eleição presidencial no país, essa, sem Zelaya.

Como previsto, o partido opositor foi vencedor.

O novo Presidente, Porfirio Lobo (foto), assume seu posto no meio de janeiro de 2010.
A maioria dos países influentes do mundo já deu seu aval ao novo governo caribenho, ou estão próximos disso, o abrandamento do discurso brasileiro mostra que o "staff " de Lula sabe que sustentar posição contrária aos fatos poderá significar perda de pontos diante de grande parte da comunidade internacional.

Vi uma pergunta feita (não lembro por quem) que exprime uma dúvida minha:

Mahmoud Ahmadinejad foi re-eleito Presidente do Irã recentemente.
Sua recondução foi cercada de dúvidas e suspeitas, falou-se muito em fraude eleitoral.
Dentro e fora de seu país houve protestos e pedidos de recontagem de votos, o que não ocorreu.

À época, Lula declarou que:
"Eleições são como Fla-Flu no futebol, sempre haverá a reclamação do perdedor, mas deve-se aceitar o resultado do jogo".

Com esse argumento, Luis Inácio justificou sua aceitação em relação ao governo persa re-eleito.

A situação no Caribe é muito mais clara do que no Irã e sua solução já foi alcançada.

Por que o Brasil se posiciona de maneira tão diversa nos dois casos?
Por que ainda hesitamos em relação à república caribenha?

De minha parte, torço para que o nosso País aceite oficialmente o novo governo de Honduras o quanto antes, pois esse já é fato consumado para o resto do mundo.